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Iyá Caetana – A Mãe dos olhos D’Água | Iyá Caetana – A Mãe dos olhos D’Água |
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| Escrito por Jaime Sodré | |
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Um intuito de homenagem é este texto, revestido de um orgulho pessoal, acessivo a todos os afros-descendentes que desejarem incorporar este sentimento. Um misto de orgulho leva-nos a registrar a trajetória de famílias negras que descendem de núcleos familiares africanos, algumas procedentes da Nigéria ou de outras regiões da continente africano, todas dignas. À dolorosa situação de homens e mulheres, compulsórios na condição de escravos, soma-se a quebra do vinculo comunitário e principalmente familiar, situação, olvidada por muitos, como se negros não tivessem famílias. Famílias negras, núcleos das religiões de matriz africana ou não, povoaram com dignidade a cidade do Salvador. Entre estas, registramos como exemplos as família Alaketu, Asipa, Alakija (que não tem ligação aos núcleos de candomblé). Enquanto estes nomes visualizam-se a procedência pelo nome africano, sobrenomes como “Mello” do povo gege do Zoogodo Bogum Male Rundo; “da Hora” do povo banto do Tanuri Junçara e “Nazaré” do povo do Gantuá, vincula a língua portuguesa ao povo negro, honrando-a pelo caráter destas famílias. “Dos Santos”, do professor Juvenal Barreto, digno descendente de africanos e morador do bairro do Garcia ou “Rocha”, de Aloísio Rocha, estimado ex-presidente da Sociedade Protetora dos Desvalidos, descendente dos “Rochas nigerianos”, personagem da “Casa da Água”, são alguns dos muitos exemplos de dignidade afro-brasileira,com sobre nome português. Esta breve introdução conduz-nos ao nosso assunto principal: “A Família BANGBOSÉ”, a trajetória do LÀJOUMIM e do ILÊ ODÔ OGÊ que remonta as origens do candomblé no Brasil em um ambiente adverso, logo de resistência e dádiva. O culto de matriz africana firmou-se em Salvador pela necessidade da consolidação, em território brasileiro, do essencial da cultura africana, a religião, em função da sua desestruturação em território africano, fruto de contendas internas e da exploração escravocrata, que motivou a chegada à Bahia de autoridades religiosas integrantes da elite e do ambiente religioso africano. Personalidades como Iyá Detá, Iyá Kalá e Iyá Nassô implantaram a liderança feminina na formação do culto de base africana em Salvador, associada aos lideres masculinos, a exemplo de Babá Asipá, e Bangbosê Obitikô, o sr. Rodolfo Martins Andrade, que trouxe em sua companhia cuidadoso, o seu Òsú em seu Orí, o fundamento, implemento primordial no culto a Xangô. Destacado integrante do Reino de Oyó, Bangbosê era o acólito que carregara o Oxé, instrumento associado ao poder do orixá Xangô. Destacado conhecedor dos ritos do Candomblé, Obitikô foi a presença masculina que possuía o embasamento fundamental a consolidação do Candomblé no Brasil. Associado aos conhecimentos de Iyá Nassô, Marcelina Obatossí entre outras, Bangbosê tornara-se um dos patronos dos ensinamentos do Candomblé na “Nova África-Brasil”. Do Iyá Omin Asé Airá Intilé localizado na Barroquinha, a exemplo do Ilê Asé Nassô Oká, a “Casa Branca” nasce o TERREIRO LÀJOUMIM EM 1941, cuja direção competente e generosa caberia a Caetana América Sowzer, nobre herdeira da tradição e do Axé BANGBOSÉ. Reverendíssima Iyá Caetana , “Mãe dos Olhos D’Água”, filha de Felisberto Américo Sowzer, Oguntosi, instrutor da sua disciplina religiosa transmitida por seu bisavô, LÀJOUMIM, assumira a lição sagrada da continuidade da tradição Bangbosé na Bahia, tendo como antecessores Maria Andrade, Sangôbiyí, esta filha dileta de Obitikó, e Felisberto Benzinho, conhecedor dos mistérios da Candomblé e respeitado Babalaô. A particularidade dos herdeiros do Bangbosê era a alternância entre o masculino e o feminino na direção do Axé. É no Terreiro de Felisberto Benzinho no Luiz Anselmo que cresce a promissora Lájoumim, a Mãe dos Olhos D’Água, Mãe Caetana, profunda conhecedora dos preceitos do Candomblé, com sensibilidade e clarividência nata para elucidação dos enigmas religiosos, o que resultou em admiração e respeito. Elegante, em um clima de nobreza legitima, de gosto requintados refletidos em suas roupas e objetos, verdadeira “alta costura” do Candomblé, na elegância típica do seu orixá, a Grande Deusa das Águas, assim era Iyá Caetana. A fertilidade do Terreiro Làjoumim procriou o ILÊ ODÔ OGÊ, o PILÃO DE PRATA fundado em 1963, tendo na sua liderança gentil e competente o Babalorixá Air José de Souza, de Oxaguian, filho de Tertuliana Souza de Jesus, Tibúsè, sobrinho querido de Mãe Caetana, responsável por sua iniciação litúrgica, um legitimo seguidor do trono da família Bangbosê e seguidor dos ritos da sua tradição. Pai Air segue a sua missão instalando o PILÃO DE PRATA. Com os estimulo dos irmãos da Casa Branca e o incentivo de Mãe Caetana a direção do LÀJOUMIM ficaria a cargo da sua sobrinha, Iyalaxé Haydée, filha dileta de Xangô. Embora separados pelo espaço geográfico, O Pilão de Prata situado no Alto do Caxundé, na Boca do Rio e o Làjoumim localizado na Rua Xisto Bahia na Vasco da Gama, formam uma grande família digna da sua tradição. Ampliando o seu respeitado trabalho espiritual, Pai Air empregou seus esforços na instalação do MEMORIAL LÀJOUMIM , fundado em 4 de novembro de 1994, em uma justa homenagem a Mãe Caetana, no período do seu primeiro AXEXÉ. Localizado no Ilê Ôdo Ogê, o Pilão de Prata, o memorial é composto de objetos refinados, nas categorias de sagrados, indumentárias, moveis, estatuetas, contas e colares, instrumentos musicais, incluindo um violino, elementos de variadas procedências associados ao bom gosto de Mãe Caetana, além de elementos do Candomblé. Para a consolidação da capacidade intelectual dos fieis do Candomblé e da comunidade em geral, Pai Air idealizou e construiu a Biblioteca Làjoumim inaugurada em 2000, na cerimônia dos sete anos de falecimento de Mãe Caetana. Coube a Pai Air a criação da Sociedade de Preservação do ASÉ BOMGBOSÉ, encarregada da administração do patrimônio material, cultural e religiosa do Làjoumim e Pilão de Prata, composta de uma Diretoria Executiva e Conselho Religioso. Recentemente, como reconhecimento do seu papel e consolidação do seu prestigio junto ao Candomblé e na comunidade brasileira, a Prefeitura de Salvador na gestão de Antonio Imbassai, inaugurou reformas no entorno do Terreiro, culminando com a instalação de um monumento a Mãe Caetana, uma justa homenagem a FAMILIA BANGBOSÊ. Bem diz o ditado popular: QUEM SAI AOS SEUS NÃO DEGENERA. Jaime Sodré é Professor da UNEB e CEFET, Mestre em Teria e Historia da Arte, Doutorando em História Social e Xicarongoma. |
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