| O NASCIMENTO DE UM MUSEU |
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A idéia de qualificar as matrizes culturais da civilização brasileira responde a uma necessidade de reverter o discurso redutor, que exclui e desqualifica a contribuição das matrizes africanas e indígenas, para afirmar exclusivamente a importância da matriz européia pelo que somos. O discurso prevalecente na historiografia oficial, desde que se incumbiu de construir a memória de nosso processo formativo, esquece o que no quotidiano do Brasil em formação, desde o século XVI significou vida, trabalho, invenção, resistência, contribuição civilizatória oriunda de vários segmentos étnicos que, no nascimento da nação, foram subestimados e colocados como atores invisíveis e sem importância. A árvore genealógica do Brasil foi também uma árvore do esquecimento. A criação de um museu corresponde a uma árvore da lembrança, que contraria esta tendência, colocando a produção do negro no centro da vida brasileira. E muitas gerações de afro descendentes cobraram esta iniciativa, Prosperaram sombras e cortinas impenetráveis, onde colaboravam o desconhecimento, a ignorância e o preconceito, formatando visões secundarizantes da milionária contribuição dos afro-brasileiros, ingrediente básico da grandeza do Brasil contemporâneo. A instalação na Bahia do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira é uma resposta contemporânea que atende o sonho de várias gerações. A precursora da idéia é a própria comunidade de afro-descentes que criou diversas casas de cultura, em quase todo o território nacional, singelos memoriais, na tentativa de preservar o que os seus ancestrais produziram para que fossemos como somos, uma cultura ricamente diferenciada. Em todo o Brasil onde passou o negro, não importa em que condição, há marcas de sua presença. E onde este negro fez família e se mesclou com a comunidade nacional, deixou formas de fazer e sentir, saberes que até hoje prevalecem no que se chama diversidade cultural brasileira. Os precursores desta imperiosa necessidade de destacar os saberes e fazeres que a produção dos afro-descendentes foi capaz de introduzir em nosso processo civilizatório, revelando-os, qualificando-os, preservando e processando, na dinâmica sócio-econômica, foram os próprios negros. Estes esforços podem ser presenciados na prática clandestina nas senzalas dos usos e costumes de procedência africana e mesmo nos quilombos, expressão magnífica desta capacidade irredutível de amor aos seus valores, porque se identificam como essenciais á construção da vida e da sociedade, na forma como desde a África os remanescentes dos escravos aprenderam e praticaram, produzindo e preservando conhecimentos necessários ao crescimento material e imaterial de todo organismo vivo e das sociedades organizadas. Mais recentemente esta praxis de conservar seus mitos, sua concepção da vida e do mundo, suas técnicas de transformar o real, de celebrar o existir, seus saberes, seus fazeres, seu sentires, seu patrimônio material e imaterial, foi se concretizando em pequenos e singelos memoriais que contam o percurso dos seus ancestrais aos contemporâneos, transferindo, ininterruptamente, a várias gerações o bastão da missão da guarda e processamento dos signos e significados de sua presença em nosso processo formativo. Existem em todo território nacional centenas de organizações criadas para processar e preservar conhecimentos, cultuando referências históricas, dentro de sistemas que integram religião, diversas artes e ofícios, como escultura, música, capoeira, danças, culinária, medicina, botânica, economia, política e ética. Nomear estes precursores é imensa tarefa que o museu vivo espera cumprir. Parte dela já foi localizada, pelos estudos e pesquisas da antropologia, sociologia, estética, uma grande e nova literatura que tem desconstruído mitos e preconceitos, recuperando os valores que secularmente foram negados. Apenas para citar uma recente publicação, valiosa arqueologia de nomes importantes da presença do negro em nossa civilização, citamos a "A Mão Afro-Brasileira", obra organizada por Emanoel Araújo, indispensável a qualquer pesquisa histórica. NASCIMENTO DE UM MUSEU Em entrevista com o ex-Ministro Francisco Weffort e Pedro Tadei, diretor do Programa MONUMENTA, na sua gestão, algumas informações básicas foram levantadas para acompanhar o processo que resultou no projeto de implantação do MUNCAB - Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, hoje empreendido pela AMAFRO. As notícias mais remotas estão localizadas no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso. E a proposta surge de uma sugestão do Banco Mundial de construir um centro dedicado ao estudo da cultura afro-brasileira, com visibilidade nacional, fora do eixo Rio/São Paulo. Esta idéia prosperou inicialmente na Fundação Palmares, quando presidida por Dulce Ferreira e Carlos Moura, que se mobilizaram para fundar em Brasília um Centro Nacional de Referencia da Cultura Afro-Brasileira. A idéia encontrou resistências motivadas pelo nome que se deu ao projeto de Memorial da Escravatura. Com este bloqueio a idéia praticamente foi abandonada pelo Banco Mundial e esquecida. A idéia renasce quando o Ministro Francisco Weffort pensa em criar 05 (cinco) museus nacionais fora do eixo Rio/São Paulo/Brasília, tendo entre eles o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira. Esta idéia vai encontrar no Embaixador Murtinho um grande apoiador, repetindo o protagonismo do Itamaraty, através do Saraiva Guerreiro, quando da criação do Museu Afro, CEAO/UFBA, também criado na Bahia, através da Secretaria de Cultura do Ministério da Educação, estrutura que mais tarde será a origem do atual Ministério da Cultura e tendo como apoio local a Profª. Yeda Castro. O primeiro encontro, em Salvador, para tratar do assunto, reuniu Ubiratan Castro, pelo CEAO/Museu-Afro (UFBA), o Embaixador Murtinho e o arquiteto da Fundação Palmares Jonathas Barreto, cuja missão seria localizar um prédio para instalar o Museu. O prédio escolhido foi a Casa das 7 Mortes. Num segundo momento, foi integrado ao grupo Emanoel Araújo, baiano, santamarense, artista já consagrado na área de museologia, convidado para ser o curador do MUNCAB. Na ocasião, Emanoel veta a Casa das 7 Mortes, pelos trágicos acontecimentos que aí ocorreram e indica o Tesouro 1 e Tesouro 2 para sediar o MUNCAB. Estas reuniões incluíram ainda o Secretario de Cultura Paulo Gaudenzi, pelo Governo do Estado da Bahia, colaborador de importância. O segundo momento deste percurso, vai surgir de um diagnóstico da situação que cronicamente expõe os nossos museus a crises de sustentabilidade. A idéia também concebida dentro do MINC, seria a de buscar uma fórmula que contasse com a colaboração da sociedade organizada na administração junto ao Estado destes Museus, que teriam as Associações de Amigos do Museu como sustentáculo. Com esta idéia, o MINC estimulou a criação de uma sociedade que inicialmente pudesse propor a instalação do MUNCAB, usando recursos oriundos da Lei Rouanet. É quando, já no final do segundo mandato Fernando Henrique Cardoso, surge a AMAFRO - Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira. Antes de registrar os eventos do período de criação da AMAFRO, é preciso registrar algumas iniciativas anteriores surgidas na Bahia, entre as quais a proposição de Juanita Elbein, que junto com o Mestre Didi, criaram a SECNEB - Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, entidade importante na valorização da necessidade de se criar um mMuseu específico sobre a cultura afro-brasileira. Também foram criados memoriais em terreiros de candomblé, como o de Mãe Menininha do Gantois, o do Ilê Axé Apó Afonjá, orientado por Mãe Stella de Oxossi, e ainda o de Mãe Mirinha, no Portão. O resgate destes precursores é fundamental, como é desnecessário dizer que surgiram em outros Estados iniciativas correspondentes, sendo que o Museu Afro, localizado na antiga Escola de Medicina, com origem no CEAO/UFBA é pioneiro oficial de grande importância. Segue-se a esta tendência de preservação e reflexão, o magnífico Museu Afro-Brasil, criado em São Paulo por Emanoel Araújo. A criação da AMAFRO foi fundamental para o projeto de instalação do MUNCAB na Bahia. Seus fundamentos estatutários foram consagrados numa ampla assembléia que reuniu políticos, cientistas, historiadores, economistas, antropólogos, artistas, representantes de terreiros, blocos afros, educadores, pesquisadores, pensadores e militantes da causa negra, oriundos de diversas tendências, unidos pelo ideal do resgate e pela missão de inverter os sinais históricos da negação, afirmando a pluralidade cultural, a liberdade de culto, o respeito às diferenças. Entre os pioneiros que se empenharam na sua criação, estão Carlos Augusto Marighella e Ubiratan Castro, cujas presenças (e aqui me incluo) estimularam as adesões que estão registradas na ata de criação da entidade. Em 4 anos, a assembléia elegeu duas diretorias, responsáveis pelos avanços que a entidade alcançou. Hoje, vários nomes contribuem na vitoriosa jornada da entidade, que anuncia para o próximo ano a inauguração do MUNCAB. Lutam diariamente, sem alarde, afastando entraves, construindo oportunidades, nomes como o de Jaime Sodré, Nerivaldo Almeida, Ivanilton Santos Silva, Maria Augusta Rosa Rocha, Eulampia Reiber, Nelson Mendes, Samuel Vida, Lamartine Lima, Dr Heraldo Moura Costa, Vovô do Ilê, Osmar Sepúlveda, Alexandre Laci, Clarindo Silva, Wanda Sá Barreto, Ivete Sacramento, Lucivone Carpintero, Oswalrízio Santos, Wanda Sá Barreto, Heloisa e Maria José Capinan, além dos representantes de terreiros e entidades, entre outros participantes. O MUNCAB E A GESTÃO GILBERTO GIL A eleição do Presidente Lula e a escolha de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, assim como a posição do Governo Bahia e sua Secretaria de Cultura, antes e agora, são sólidas garantias da continuidade do projeto. O Ministro foi incisivo no apoio que deu ao projeto e se empenhou pessoalmente em viabilizá-lo, influenciando os patrocinadores pioneiros, Caixa Econômica e BNDES, a adotar a instalação do MUNCAB e liberar os primeiros recursos. Com estes recursos foi possível criar as projetos básicos de restauro dos prédios do Tesouro 1 e Tesouro 2, hoje em obras de recuperação dos telhados, fachadas, estrutura e esquadrias, com recursos do Programa MONUMENTA e gestão do IPHAN e CONDER. Em seguida, com gestão da AMAFRO e recursos dos primeiros patrocinadores e também Votorantim, começaremos as obras internas de adaptação dos prédios às funções do museu, com áreas expográficas, áreas para eventos, biblioteca, oficinas pedagógicas, acesso virtual, restaurante, café, lojas e o Memorial da Diáspora, tendo ainda que captar parte significativa dos recursos para a finalização do projeto. O Ministro Gilberto Gil, através dos órgãos incumbidos das instituições museológicas e da Secretaria Executiva do MINC, dá prioridade ao projeto. A Fundação Palmares é parceira e o IPHAN/DEMU participa das fases de implantação, discutindo as propostas dos modelos de museologia/expografia, arquitetura, gestão, e agora formula o projeto de lei que o Presidente Lula enviará ao Congresso para oficializar a criação do MUNCAB. É importante lembrar os nomes de Luiz Fernando (IPHAN), José Nascimento (DEMU) e Eugênio Lins ativos militantes deste projeto, acrescentando o protagonismo de Juca Ferreira e Zulu Araújo, também os diretores e técnicos da CONDER. É meta da atual diretoria inaugurar o MUNCAB em novembro de 2007, embora não adotemos o conceito de inaugurar para funcionar. O Museu já funciona. Já faz seminários sobre gestão, roteiro e conteúdos da expografia, participa dos eventos da Semana da Consciência Negra, discutiu o Museu durante o II CIAD e a cada dia ganha mais visibilidade, lançando projetos educativos que começam a ser postos em prática, sobretudo valorizando quilombolas e o patrimônio tangível e intangível da cultura afro-brasileira. Foram criados Grupos de Trabalho para desenvolver os projetos de museologia/expografia, arquitetura, e modelo gestor - coordenados inicialmente por especialistas como a Profª. Maria Célia, que criou as linhas básica do projeto museológico, documento guia de todo o processo de instalação do museu. Os demais grupos de trabalho tiveram como coordenadores os arquitetos Fernando Madeira e Carl Von Hauenshild, o mestre em administração e gestão Dr. Paulo Guedes e Francisco Lessa. A continuidade destes projetos incluiu outros colaboradores como Carlos Marighella, Jaime Sodré, Dulce Guedes, e Ângela Andrade. que discutiram as proposições com comunidades de terreiro e entidades do movimento negro, preparando um grande encontro para mostrar todo o conjunto de propostas que farão parte das atividades do MUNCAB. Este artigo tem o objetivo de informar sobre o trabalho que a AMAFRO realiza a frente da instalação do MUNCAB, no ano em que comemora seu 5º, aniversário de fundação, ele é dedicado aos nosso sócios e conselheiros, também seus colaboradores como Hélio Fernandes, Isa de Souza Silva, Edileuza Silva, Tereza Pereira, Ana Figueiredo, Jusciele Almeida, seus apoiadores e interlocutores hisóricos, como Ubiratan Castro, Zulu Araújo, Juca Ferreira, Dep. Walmir Assunção e recentemente Fernando Schimidt, Maria del Carmen, Márcio Meirelles, Domingos Leonelli, representantes do Gov. Jacques Wagner, que declarou apoio integral ao MUNCAB.
Para encerrar, agradecemos o apoio de toda sociedade baiana que aguarda a abertura do Museu para nele conhecer melhor o que somos e quais os principais protagonistas desta obra inigualável, que é o Brasil, a diversidade cultural mais bem sucedida do planeta. |